Descreve e coloca em discussão temas inerentes ao Meio Ambiente, Geologia, Geografia, História, Cultura e Tradição da Região do Vale do Açu - RN
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Desafios do Vale do Açu RN
Joacir Rufino de Aquino e Raimundo Inácio S. Filho - Professores da Uern
A microrregião do Vale do Açu localiza-se na mesorregião Oeste Potiguar e ocupa uma área de 4.750,08 km2, o que corresponde a 9,0% do território do Rio Grande do Norte. Do ponto de vista político-administrativo, de acordo com o IBGE, é composta por nove municípios: Alto do Rodrigues, Assú, Carnaubais, Ipanguaçu, Itajá, Jucurutu, Pendências, Porto do Mangue e São Rafael. Nas últimas três décadas a economia do Vale do Açu vem passando por grandes transformações. Logo no início dos anos 1980 é inaugurada a Barragem Armando Ribeiro Gonçalves e com ela os projetos de agricultura irrigada. Também é a partir desse período que começa a exploração de petróleo e, em seguida, do gás natural, mudando a fisionomia do espaço regional. Paralelamente a essas "novas" economias, o setor ceramista se expande puxado pelo crescimento urbano das cidades.
A diversificação da base produtiva ampliou substancialmente a capacidade de geração de riqueza na região. Alguns estudos mostram que a microrregião do Vale do Açu foi a que mais cresceu no interior do RN a partir da segunda metade do século XX até recentemente. A título de ilustração, basta mencionar que o Produto Interno Bruto (PIB) regional saltou de R$ 323,8 milhões, em 1999, para mais de RS 1,0 bilhão, em 2008. Mesmo assim, sua participação na formação do PIB potiguar continua baixa, girando em torno de 4,5% ao ano durante a série de tempo analisada pelo IBGE.
Com efeito, por mais que a economia da microrregião tenha evoluído nos últimos 30 anos, nem todos os filhos da terra conseguiram desfrutar dos ganhos do "progresso". Segundo as informações disponíveis no banco de dados do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), em 2010, nada menos do que 4.397 habitantes do Vale do Açu viviam sem qualquer tipo de renda fixa por mês e 16.280 tentavam sobreviver com uma renda mensal que variava de R$ 1,00 a R$ 70,00, ou seja, algo em torno de 14,70% da população local era extremamente pobre.
Em contrapartida ao quadro apresentado, deve-se registrar que o modelo de crescimento desigual instaurado no espaço geográfico regional tem gerado graves problemas ambientais. Entre eles, é possível destacar: desmatamentos, lixões, poluição e assoreamento dos recursos hídricos, ocupação irregular e desordenada do território, contaminação do solo, queimadas, caça e pesca predatórias etc. Tais problemas se agravam ano a ano, e, sem uma solução sustentável, podem até comprometer o futuro das atividades produtivas na região num breve espaço de tempo.
Diante deste cenário dual, marcado pela abundância de recursos naturais e fortes desequilíbrios sociais e ambientais, o que fazer? De maneira dispersa, vários projetos têm sido apresentados como forma de promover um novo ciclo de crescimento econômico regional. Contudo, a inexistência de um plano de desenvolvimento integrado para a microrregião tem dificultado o processo. O Consórcio Vale Unido, que poderia ser um valioso instrumento na construção do futuro, infelizmente, não tem conseguido harmonizar os interesses políticos em constante disputa por poder. Percebe-se, então, que a jornada em busca de um novo modelo de desenvolvimento regional para o Vale do Açu está apenas começando. Para que ela seja bem-sucedida, é necessário (re)pensar urgentemente a estratégia de gestão dos recursos naturais na região e procurar incluir produtivamente as populações mais pobres. O problema é que isso não pode ser feito por decreto. Todo e qualquer avanço nessa área vai depender da participação popular e da mudança nas crenças, ideais e valores dos nossos atuais e futuros governantes municipais.
Portanto, os desafios que se apresentam no contexto da economia do Vale do Açu no século XXI são complexos e dificilmente serão vencidos com ações pontuais e isoladas. Os interesses localizados precisam ser substituídos por uma perspectiva territorial. Assim, tudo indica que o futuro da microrregião dependerá da combinação de três propósitos: mobilização popular, aprofundamento das inter-relações solidárias entre os municípios e planejamento estratégico participativo. Apoiá-los pode ser o primeiro passo para avançar na luta contra o subdesenvolvimento regional.
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