REDESCOBRINDO A CARNAÚBA NO VALE DO AÇU
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Joacir Rufino de Aquino e Raimundo Inácio da Silva Filho
(Professores da UERN/Assú)
A carnaúba (copernicia prunifera) é uma árvore típica da região Nordeste do Brasil. Os estados
do Piauí (PI), Ceará (CE) e Rio Grande do Norte (RN) possuem as maiores reservas desta palmeira
majestosa, conhecida como "árvore da vida". Estampada na bandeira do RN como símbolo de orgulho
potiguar, tal planta já foi uma fonte de riqueza de enorme destaque em nosso estado e, principalmente,
na microrregião do Vale do Açu. Contudo, nos últimos 40 anos, devido à queda dos preços
internacionais da cera natural e ao desmatamento sem regulação verificado na região, o carnaubal vem
sendo gradativamente destruído.
De fato, as carnaubeiras têm sido as maiores vítimas do "progresso" no Vale do Açu. Na
construção da Barragem Armando Ribeiro Gonçalves milhares de árvores foram abaixo de uma única
vez. Logo depois uma nova onda de devastação ganhou força com a expansão da atividade petrolífera,
da fruticultura irrigada, do setor ceramista e do crescimento desordenado da ocupação do solo
regional. Como resultado desse processo, calcula-se que, entre 1966 e 2010, cerca de 4 milhões de
árvores foram dizimadas. Neste mesmo período, estima-se, ainda, que a área com ocorrência de
carnaubeiras foi reduzida a menos da metade.
A preocupação com a gravidade do quadro apresentado já suscitou calorosas discussões
envolvendo diferentes segmentos da sociedade. Há anos que o Núcleo Temático da Seca
(Nut/Seca/UFRN), liderado pela professora Tereza Aranha, vem promovendo estudos e debates em
defesa do carnaubal do semiárido potiguar. Apesar disso, em nenhum momento a temática foi inserida
como prioridade na agenda política governamental.
Transcorridas mais de três décadas de lutas, entretanto, há indícios de que nem tudo está
perdido. Segundo o documentário apresentado no programa Good News da Rede TV, veiculado no dia
15 do mês passado, existe uma luz no fim do túnel. A recuperação internacional dos preços tem
trazido um novo alento para os extrativistas de pó e os produtores de cera. Além disso, está em
andamento na região um conjunto de inciativas capitaneadas pela ONG Carnaúba Viva e pela
Fundação Félix Rodrigues, que buscam organizar as comunidades locais para promover o uso
sustentável da carnaúba no território açuense.
Entre as iniciativas inovadoras levadas adiante por essas instituições e seus parceiros cabe
destacar, por exemplo, a fabricação do papel e o artesanato da palha, a produção de grades e a
confecção de esteiras impermeabilizadas desenvolvidas especialmente para acondicionar os dutos de
petróleo e gás da PETROBRAS. E não para por aí. O movimento silencioso em defesa da carnaúba
acabou de aprovar alguns importantes projetos que pretendem usar a biomassa extraída dos restos dos
talos e das folhas dessa valiosa palmeira para produzir briquetes (lenha ecológica), visando ampliar a
geração de renda nas comunidades rurais e ajudar o setor ceramista a substituir a matriz energética em
sua atividade. Tudo isso, animado por um criativo projeto de educação ambiental ancorado na
valorização dos saberes e da cultura local.
Em um sentido amplo, muitas lições podem ser tiradas dessas experiências. Mas o importante
é perceber que é bem mais vantajoso para a população local preservar a carnaúba e mantê-la em pé do
que simplesmente transformá-la em carvão ou noutra fonte energética. O uso sustentável dessa planta
pode possibilitar a redução do desmatamento indiscriminado, contribuindo para proteger a
biodiversidade dos ecossistemas locais, e, como recompensa social, gerar ocupação e renda para
centenas de famílias da região.
Portanto, a carnaúba e seus atores têm tudo para dar uma reviravolta histórica. De vítima do
progresso ela pode se converter em uma forte aliada na construção de um novo modelo de
desenvolvimento endógeno para o Vale do Açu. O desafio agora é trabalhar e torcer para que os
projetos em andamento possam prosperar. Mais eles já dão pistas concretas de que é possível usar os
recursos naturais de forma sustentável e ao mesmo tempo garantir a sobrevivência digna do homem do
campo, combinando harmoniosamente tecnologia social e cultura local. Isso é um sinal claro de que
existem alternativas promissoras bem perto de nós só esperando uma chance para mostrar todo o seu
potencial.
1 Artigo publicado no Jornal O Mossoroense, Mossoró/RN, 25/11/2011, p. 5.
Caros pesquisadores,
ResponderExcluirSe possível, gostaria de saber da existência de alguma iniciativa governamental pela criação de uma Unidade de Conservação na região que teria, além da área de influência do Rio Assú, como objetivo a proteção da Carnaúba.
Att.
José Petronilo
Em tempo, indago sobre a possibilidade de reproduzir esse texto no meu Blog com as devidas referências. Obrigado.
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